A Terapia Psicológica e a Acupuntura

Por Cristiane Marins Soares

15/07/2010


O objetivo deste trabalho é demonstrar como a Acupuntura e a Medicina Tradicional Chinesa podem ser importante instrumento auxiliar na Terapia Psicológica.
O Interacionismo Cartesiano pressupõe dois processos distintos e interatuantes: mente e corpo. É assim que a visão ocidental classifica as patologias, aquelas relacionadas ao corpo, que cabe a Medicina e as relacionada à mente, que cabe a psicologia. A psicologia estuda as emoções e de que maneira essas emoções se refletem no comportamento. A psicoterapia é uma relação entre o terapeuta e doente, onde o primeiro utiliza-se de métodos da psicologia no tratamento dos distúrbios psíquicos. Segundo Skinner, o como as pessoas se sentem é tão, freqüentemente, importante quanto o que elas fazem. (1987/1989 pp.3-11)
A Psicoterapia promove o autoconhecimento, conduz o paciente a um novo olhar de seus sintomas, um ajustamento criativo entre suas emoções, seu corpo e seu ambiente.
Já a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) corpo e mente não se separam, encara a Mente como um sistema dinâmico e interdependente dos órgãos do corpo. A Medicina Tradicional Chinesa é muito antiga e alguns autores ousam afirmar que ela se originou desde que o primeiro Homem do Planeta pressionou e massageou seu corpo de forma instintiva ao sentir dor. Inspira-se nos fenômenos da Natureza e segue os conceitos fundamentais da filosofia do Tao, este, é um caminho de virtude, ação, mente coração e equilíbrio energético. Estabelece o caminho ou o modo pelo qual a humanidade deve viver. Para a Filosofia Taoísta, o Homem se encontra entre o Céu e a Terra e as Leis imutáveis do Universo unem tudo que há na Natureza. Cada indivíduo é um microcosmo do Universo, com seu Qi em ressonância com o Qi do Céu (Yang) e da Terra (Yin). Por isso, as alterações climáticas interferem diretamente no Qi do indivíduo.
Segundo esta filosofia, o Homem é uma criatura especial no Universo, porque somente ele é detentor de "Três Tesouros": Jing, Qi e Shen.
Jing (Essência) é a energia constitucional e Física, herdada geneticamente.
O Qi (energia) é matéria não substancial que está por trás de tudo que se manifesta. Ele dá origem ao Céu e a Terra. A energia Yang, mais sutil forma o Céu, enquanto a energia Yin, mais densa, forma a Terra. Entre o Céu e a Terra se encontra o homem, como unidade integrada e submetida às Leis do Universo.
O Shen (espírito) é o tesouro que nos diferencia dos animais, pois eles possuem Jing e Qi. É o Shen que nos torna seres com consciência.
Yin e Yang são as duas polaridades do Universo e podem ser representadas, pela figura do "máximo supremo", onde um é parte integrante do outro. Estas energias são ao mesmo tempo antagônicas e complementares. Nada é totalmente Yin ou Yang.
Yang é luz, calor, movimento, masculino, força, exterior. Enquanto Yin é escuro, frio, quietude, feminino, fraqueza, interior.
O movimento do Tao, através das polaridades Yin/Yang geram os cinco elementos ou cinco movimentos. Estes são características inerentes a tudo que existe no Universo, representam funções e qualidades. Cada elemento corresponde a um órgão e a uma região anatômica. Relacionam-se através de ciclos de geração e dominância, que são aplicados a fisiologia, patologia, diagnóstico e seleção de pontos de Acupuntura para tratamento. (Shanghai, et al., 2009)
A Mente, aqui, aparece como Shen. O Shen são todas as atividades mentais que englobam consciência, pensamento, funções cerebrais como memória, cognição, sono, inteligência, sabedoria, idéias e insight. É abrigada pelo coração, contudo, a memória não depende apenas deste sistema, outros órgãos também estão relacionados com a capacidade de lembrar.
As emoções, por sua vez, afetam diferentes órgãos e estão ligadas a teoria dos cinco movimentos:
1. O MOVIMENTO MADEIRA, caracteriza - se pelo crescimento, florescimento, seu órgão é o Fígado e sua emoção é a raiva.
2. O MOVIMENTO FOGO caracteriza - se pela expansão, seu órgão é o coração e sua emoção é a euforia.
3. O MOVIMENTO TERRA caracteriza - se por transformações, seu órgão é o Baço Pâncreas e sua emoção é a preocupação.
4. O MOVIMENTO METAL caracteriza - se pela purificação, seleção, análise e limpeza, sua emoção é a tristeza e seu órgão é o Pulmão.
O MOVIMENTO ÁGUA caracteriza - se pela retração e profundidade, sua emoção é o medo e seu órgão é o Rim.
O aspecto mental dos órgãos compõe o Sistema Shen (Mente), que se divide em quatro aspectos.
HUM é a alma etérea, que pode ser entendida como a alma ou o espírito. Representa o yin dentro do yang. Seu órgão é o fígado. Quando o fígado está deficiente, o Hun perde sua "morada", trazendo á tona sintomas de insônia, timidez, medo, excessos de sonhos e perda do sentido de direcionamento na vida. O Hun desabrigado se refere a uma pessoa cheia de fantasias e planos que não consegue concretizar. Ele é responsável pela intuição, inspiração, capacidade de auto-discernimento, introspecção e comunicação com o mundo exterior. É o Hun que impede que as emoções se tornem excessivas e se transformem em causas das doenças. Alguém com o Hun bem enraizado apresentará uma vida emocional equilibrada e feliz. Sua emoção é a raiva. Podemos ver o aspecto positivo da raiva quando move a pessoa a iniciar movimento de mudança, crescimento pessoal ou cultural. Em outro aspecto, a raiva está ligada a sentimentos negativos como frustração, ressentimento, amargura e ódio. Muitas vezes, na tentativa de evitar tais sentimentos, o indivíduo pode utilizar - se de recursos como ocupação constante, isolamento, atividade física excessiva, uso de álcool e drogas.
O Po representa a alma corpórea, seu órgão é o pulmão. Ele é o princípio vital, a energia que movimenta e sustenta o corpo. É composto dos cinco sentidos e é responsável pelo movimento dos membros, agilidade equilíbrio e coordenação. O Po é a infância e os sentidos, a sensibilidade, as sensações térmicas, prurido, a sucção e o choro do recém - nascido. Relaciona-se com a capacidade de sentir dor física e emocional. Protege o indivíduo das influências psíquicas externas, sua emoção é a tristeza. O PO capacita as pessoas a encarar as perdas, a sentir uma dor de pesar e seguir em frente. Quando do seu desequilíbrio, o sujeito permanece retido em seu processo de luto, se torna incapaz de assimilar mudanças, sente - se oprimido e deprimido.
O Yi representa inteligência, reside no sistema baço- pâncreas e é responsável pelo pensamento aplicado, estudo, memorização, foco, produção de idéias e concentração, sua emoção é a preocupação. Denota características de pensamentos obsessivos. O desequilíbrio no Yi aparece no indivíduo, excessivamente, solidário, que não conseguindo viver sozinho, associa - se a vários grupos, objetivando a formação de laços emocionais.
Por último o Zhi é a força de vontade, tem como órgão o rim e relaciona - se com determinação, direção, motivação, sua emoção é o medo. O medo manifesta - se em forma de agitação, porque aumenta a atividade fisiológica do indivíduo. Uns apresentam dificuldade de permanecerem quietos, outros paralisam. O medo depaupera o Rim, causando enurese, aumenta a produção de adrenalina causando musculatura retesada, aumento da freqüência cardíaca e ritmo respiratório. O medo em excesso domina a mente. A função do Zhi é utilizar as outras formas de pensamento como base para estabelecer os métodos e as etapas corretas para resolver objetivamente os problemas. (Maciocia, 2007)
A técnica de acupuntura consiste em colocar agulhas específicas em diferentes locais de todo o corpo, chamados acupontos, visando estimular esses locais, buscando promover as capacidades naturais regeneradoras do corpo e da mente para restabelecer a homeostase do organismo.
A união destes dois saberes auxilia de forma muito eficaz no combate de sintomas que geram grande sofrimento aos indivíduos, ambos fornecem autoconhecimento e abrem um novo olhar, uma nova trilha pra uma vida mais equilibrada e até, feliz.

BIBLIOGRAFIA:

MACIOCIA, Giovanni, Fundamentos da Medicina Chinesa, 2ª ed, SP, Rocca, 2007
Marx, M.H. & Hillix, W.A, Sistemas e Teorias de Psicologia, 15ª ed, SP, Cultrix, 1978
Laplanche e Pontalis, Vocabulário de psicanálise, 4ª ed, SP, Martins Fontes, 2001
Skinner, B.F, The place of feeling in the analysis of behavior, Columbus, Merril, 1989
Hicks, A, Hicks, J, Mole, P, Acupuntura Constitucional do Cinco Elementos, SP, Rocca