Psicologia do Esporte: prevenção e preparação

Por Luciane de Andrade Barreto

08/04/2008

 

Nem só de alto rendimento vive o psicólogo do esporte!
De fato, uma de suas tarefas é utilizar princípios e instrumentos psicológicos em atletas, técnicos e comissão técnica com o objetivo de alcançar níveis ótimos de saúde mental, rendimento e performance. Mas não se restringe a aplicar testes, descrever perfil, resolver conflitos, melhorar a relação inter e intrapessoal na equipe ou detalhar ao técnico quais condições e estratégias são mais eficientes para cada atleta.
Este profissional pode ser fundamental ao ajudar um atleta na sua adaptação na nova cidade, situação muito comum quando há mudanças de clubes ou país. Pode prevenir os efeitos da aposentadoria de um esportista, enfocando a organização da carreira e o planejamento do futuro. Prevenir possíveis transtornos alimentares e uso de dopping ou drogas através do efetivo acompanhamento e da parceria criada com técnicos e comissão técnica. Preparar um atleta para enfrentar o maior adversário ou a própria torcida ou mesmo a cobrança dos pais e dos técnicos ou atuar na reabilitação psicológica do atleta lesionado.
O caso da ginasta Jade Barbosa, durante as competições nos Jogos Pan-Americanos do Rio, demonstrou como a cobrança e a torcida podem ser verdadeiros adversários, pois cada atleta reage de forma diferente diante de um evento, afinal cada qual tem seu repertório de experiências e estrutura psicológica para enfrentar uma situação. Era possível prevenir o que ocorreu? Não saberemos nunca. Podemos afirmar que um profissional poderia ter ajudado esta atleta a enfrentar tal situação e fazer da torcida sua aliada e da concentração a sua força. A preparação psicológica não se dá em encontros descontínuos ou em situações de atendimento emergencial, mas através de um processo de avaliação, acompanhamento e orientação psicológicos.Ter vivências sofridas anteriores, como a perda da mãe, podem ser trabalhadas mais profundamente de forma a não interferir no desempenho. Na verdade, podem se tornar motivos de enfrentamento, superação e conquista.
Apesar de ser considerada uma área emergente, a Psicologia do Esporte é utilizada por russos e americanos desde o início do século XX. No Brasil, os primeiros registros são associados ao trabalho de João Carvalhaes, na década de 50, no S.P.F.C. e na seleção brasileira de futebol.
Desde então muito tem sido pesquisado e realizado e atualmente há uma grande diversidade de prática e pesquisa e isso tem ampliado o conhecimento e as possibilidades de atuação.
Além do esporte competitivo, o psicólogo do esporte pode contribuir na área de aprendizagem, lazer e recreação ao elaborar e participar de programas de atividades esportivas educacionais e de reabilitação, orientando o caráter profilático e recreacional, visando o bem-estar e qualidade de vida dos indivíduos. Pode colaborar para a adesão e participação aos programas de atividades físicas da população em geral ou portadora de necessidades especiais.
A inserção deste profissional no esporte educacional e de participação são fundamentais para que as intervenções sejam precoces e possam fazer a diferença quando chegar ao esporte competitivo, assim como os clubes investem nas categorias de base para encontrar os craques do futuro.
Acima de tudo, para além da busca de melhores resultados, devemos garantir o respeito ao ser humano.

Luciane de Andrade Barreto é Graduada em Psicologia pela Universidade Paulista (2000) e em Educação Física pela Universidade de Santo Amaro (1990). Atualmente é psicóloga e pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo, desenvolvendo diversos projetos na área de Distúrbios do Sono e Atendimento Ambulatorial junto à equipe interdisciplinar do Ambulatório Neuro-Sono. Atua em Psicologia Clínica no setor público e privado, incluindo avaliações e atendimento a atletas, esportistas e pacientes com transtornos alimentares e psiquiátricos. Especialista em Psicoterapia Ambulatorial (UNIFESP/2003), Psicologia do Esporte (2004) e Distúrbios do Sono (UNIFESP/2005). Participação e apresentação de trabalhos em diversos congressos nacionais e internacionais de variadas áreas do conhecimento (Ciências do Esporte, Distúrbios do Sono, Psicologia, entre outras).