Luxo só a vista

Por Suyen Miranda

16/05/2008


A vida contemporânea traz inúmeras oportunidades para consumirmos, e cada vez mais estas oportunidades são revestidas de imensa complexidade para encantar o consumidor. Isso é parte importante da economia de mercado – afinal, se só fosse consumido no mundo o que se considera necessário para a manutenção da vida humana, 80% das grandes invenções nunca teriam saído do papel – e o resultado deste incremento no consumo é a geração de renda e empregos. Até aqui, tudo muito bem.

A questão se complica quando estas oportunidades maravilhosas e tentadoras nos atraem quando nosso cobertor está curto. Ou seja, quando não temos reservas ou folgas financeiras que nos permitam “presentear” a nós mesmos com luxos. Falo disso porque vejo muita gente bastante esclarecida que, por vezes, cai nesta rede de encantamento e, quando se percebe, tem um luxo na mão e uma dívida nas costas.

Não sou contra o consumo, menos ainda dos luxos que fazem por vezes a realização dos nossos sonhos. Mas sempre saliento que a relação do indivíduo com o dinheiro é muito mais emotiva do que deveria ser. Isso abre um precedente para compensações, preenchimento de vazios e outras insatisfações que deveriam ser resolvidas com o cartão de crédito bem longe das mãos. Porque, quando adquirimos um bem de luxo, ou supérfluo tão desejado sem ter os recursos necessários, teremos depois uma “lembrança” não tão agradável da dificuldade em quitar uma compra impensada.

Sustento que o consumo deve ser racional, mesmo quando se trata da aquisição de nossos sonhos. Comprar um carro importado, um telefone último modelo, a roupa dos sonhos ou outros bens de alto valor é algo que deve ser visto como uma conquista, uma valorização do sucesso alcançado, e portanto não deve gerar dificuldades, somente alegrias. É muito mais gratificante poder adquirir um bem de sonhos pagando à vista, sem deixar dívidas ou ônus pesando sobre este bem tão desejado.

Ressalto que a aquisição de um luxo é diferente da aquisição de um bem essencial que, por vezes, não temos o recurso necessário e se faz importante no momento. Neste caso, opte por um sistema de crédito de pouca duração e com taxas de juros mais baixas. A regra é clara: quanto mais dinheiro a crédito você precisar, mais alta será a taxa. Isso explica porque concessionárias de automóveis ou outros serviços até financiam sem juros – pois mais da metade do valor do bem é paga antecipadamente e o restante da dívida é quitado em até um ano, se tanto.

O equilíbrio das finanças pessoais se deve muito à conscientização das nossas formas de consumo. Comprar um lindo presente para quem se ama é um desejo de todos nós. Podemos realizar isso planejando antecipadamente esta compra, guardando recursos para adquirir este bem sem dívidas, e lembrando que, com dinheiro na mão, o desconto pode ser negociado com tranqüilidade. Afinal, a compra à vista traduz menos custo: não há taxas de abertura de crédito e impostos sobre operações financeiras envolvidos.

Lembro que adquirir um luxo ou um sonho faz um bem para o ego; que tal associar esta atividade à conquista saudável que não gera dívidas ou outras possibilidades que nos tirem o controle de nossas finanças? Sem dúvida, assim o momento de consumo do luxo tão desejado será lembrado com muito mais satisfação – e sem juros!
Suyen Miranda é publicitária, jornalista, consultora em qualidade de vida, pesquisa o comportamento humano nas sociedades e realiza palestras motivacionais, treinamentos comportamentais e coaching, com experiência internacional. Mais detalhes no site www.suyenmiranda.com.