A Intolerância que Mata

Por Silvia Malamud

24/06/2009




Há poucas semanas, tivemos um evento pacífico (Parada Gay) que visou promover a expressão de individualidades por intermédio de grupos. Infelizmente, outro grupo com um tipo de visão diferente dessa realidade, acabou por agredir fisicamente um participante da Parada, até que a sua morte ocorresse.

Ao longo de nossas vidas, a construção do nosso eu é altamente influenciada por todos os espaços em que transitamos, sendo que o que mais nos define como pessoas são as vivências de início de nascimento, primeira infância e juventude.
Quanto ao nosso nascimento, o que conta é o ambiente. Dependendo do tipo de afeto, promoção de limites e ritmos adequados ou não para o crescimento do bebê e etc. A mente individual se formará e entenderá a vida de acordo com experiências que podem ser tanto estruturantes, como desestabilizadoras.

Já na adolescência, depois desta breve, porém importante primeira estruturação do psiquismo, meninos e meninas têm a oportunidade de buscar uma personalidade mais autêntica. A intenção é a de se diferenciar. Tornar-se um. Para esse feito, adolescentes costumam andar em grupos que afirmem a conquista destas supostas novas identidades independentes.

Temos inúmeros exemplos de grupos que promovem os mais variados tipos de identidades. São grupos que ampliam e criam normas e regras de conduta a respeito de si mesmos como entidade grupal, normas e regras em relação aos outros e, por fim, em relação a vida.

É neste importante momento que os jovens costumam se filiar a entidades religiosas, a grupos esportivos, times de futebol, a grupos que só falam sobre internet, grupos sobre vídeo games entre outros tantos...
A grande questão é que em todos estes grupos, invariavelmente, criam-se regras de conduta e de percepção da realidade. Em grupos mais antigos, as regras são conhecidas e repassadas aos novatos. Como exemplo, podemos contar sobre os grupos religiosos onde os conceitos morais além de serem estudados são vivenciados. Nos grupos esportivos, costuma ocorrer o mesmo e, nos demais, cada um ao seu modo, em meio às suas próprias leis também acaba acontecendo a explanação e passagem de sistemas com distintos valores.
Na maioria destes grupos, mesmo em meio às suas variações de visão de mundo, parece que o objetivo é fazer um pacto com o mundo da realidade. Parte-se de uma identidade grupal onde se busca, de modo individual, temas para ser e estar no mundo.

A questão, porém, pode tornar-se delicada na medida em que estes jovens buscadores encaminham-se para determinados grupos de conduta duvidosa. Isso se deve por conta da inexperiência frente à própria vida. Na maioria das vezes, são situações de encontro que ao acaso esbarram nos jovens quer seja por influência de conhecidos ou mesmo de amigos.

Os jovens estão expostos ao mundo, querem sair do nicho familiar e devem fazê-lo, mas estes ainda não estão prontos, posto que estão em plena fase de formação de suas identidades.

Todos nós sabemos o quanto de energia os jovens têm. Possuem abundância de energia física, sexual, agressiva e criativa. Por conta desta questão e por estarem se iniciando no mundo fora do ambiente familiar, devem tomar todo o cuidado e serem os mais abertos possíveis para com seus pais em relação à escolha dos grupos pelos quais se sentem atraídos ou que já freqüentam. Algumas vezes, ao longo de suas fases iniciais de vida por terem inconscientemente compreendido de modo distorcido como que poderiam expressar as suas mais diversas energias ou mesmo por inexperiência e imaturidade, muitos sem saberem tornam-se presas fáceis ao associarem-se a grupos suspeitos e de conduta duvidosa.

É com muito pesar que relato que já recebi em minha clínica algumas histórias dessa ordem, onde pais trabalhadores sequer tinham conhecimento das atividades clandestinas de seus filhos.

Uma das funções do nosso aparelho psíquico é a de organizar um eixo condutor que defina quem somos nós em meio a todas estas vivências. Funcionamos de modo associativo onde todas as nossas vivências se intercambiam e o resultado deste montante está no modo como cada um pensa sobre si mesmo e sobre a realidade onde vive. Deste modo, formamos as nossas identidades, os nossos conceitos
Somos assim. Entendemos a realidade através destes eixos condutores. Por atração, semelhante gosta de compartilhar com semelhante as mesmas idéias, os mesmos ideais. A identidade individual se reforça neste tipo de conversa e em meio a tantos tipos diferenciados de vivências em pleno século XXI, corremos o risco de não fecharmos uma identidade única que nos dê um apaziguamento interno que nos definam como Um.

É muito provável que essa garotada que busca meios violentos e regras mais rígidas de expressão grupal, em nome de se sentirem com uma identidade forte, no fundo, sintam exatamente o inverso. A identidade é frágil e oca e fica tentando a todo custo se reafirmar.
Já vimos isso acontecer inúmeras vezes ao longo da história. A tentativa de se sentir fortalecida em suas identidades, pelo desespero camuflado, acontece na expressão de variadas formas de violência e de intolerância a liberdade de expressão da individualidade do outro. A partir daí, decide-se que não se gostam de determinadas etnias, religiões, opções sexuais entre outros. Nesta vertente da falta de identidade interior, a possibilidade de identificação com os grupos dos supostos valentões é infinita e altamente perigosa. Primeiro, porque ali se inventa uma identidade reativa que de modo algum preenche a questão fundamental que é o preenchimento saudável da essência do ser. Segundo, porque a vida fica num ciclo vicioso girando em torno de regras agressivas de violência, com lógicas das mais absurdas, apenas e tão somente para que jovens possam escoar de modo distorcido as suas abundantes energias e terem a ilusão de que possuem alguma identidade que os defina no mundo.

Ser é completar-se por dentro, ter um sentido sagrado e amoroso em tudo o que se faz. Sentir-se criativo em qualquer tipo de função construtiva que se faça. Isso pode ser lavar pratos, ler e elaborar o que se lê e, enfim, como dito anteriormente, tudo que se faz com a intenção construtiva.

Constantemente, somos atropelados por idéias e anseios de outros, quer seja do estado, de religiões, amigos, vizinhos, net, ou pelas nossas leituras. Poderia aqui citar uma infinidade de fundamentos que podem tomar posse das nossas identidades quando ainda não autoconscientes, muitas vezes promovendo estragos incomensuráveis tanto em si como nos outros.

Aqui fica um alerta aos pais para que atentem quando seus filhos trazem qualquer dúvida em suas mentes e que estes mesmos pais possam estar efetivamente juntos com os seus filhos orientando-os. Sabendo que são a matriz. E, se por acaso, descobrirem algo de suspeito na conduta dos seus filhos, responsabilizem-se como pais, porém, evitem a culpa excessiva que não leva a nada. Não somos tão onipotentes assim a ponto de evitar tudo o que não seja bom. O mal existe e cabe a cada um de nós o desenvolvimento da responsabilidade pessoal para ficar no que é ético. E se necessário for, ter humildade para pedir ajuda.

 

Silvia Malamud é Psicóloga e atua em seu consultório em São Paulo. Tel. (11) 9938.3142 - deixar recado. Autora do Livro: Projeto Secreto Universos. Email: silvimak@gmail.com