A Incerteza e o Sucesso
Por Silvio Celestino
23/09/2007
Os caminhos que trilhamos para chegarmos ao sucesso são incertos. As
transformações que ocorrem a todo instante no mundo tornam nossos planejamentos
por vezes tolos ou aquém da realidade. Por exemplo, não há no plano de carreira
de um profissional do agronegócio algo como “em 2005 o Brasil cairá numa crise
política que jogará incertezas no setor agropecuário”. Ou, no plano de um
executivo de uma empresa européia um item dizendo “em 2005 os distúrbios na
França decorrentes da tensão social se alastrarão por toda a Europa,
desestabilizando a União Européia”. Se quisermos de fato estarmos abertos para a
realidade, temos de encará-la como se apresenta: incerta !
A menos que a pessoa esteja consciente de que este é o elemento principal a ser
considerado em seus planos, jamais se preparará adequadamente para sua vida
profissional ou pessoal.
O que ocorre se num golpe de sorte você ganha na loteria ? Ou aparece uma
oportunidade de ouro que alavanca decisivamente sua posição profissional e
financeira ? É evidente que há histórias de fracassos inacreditáveis que se
sucederam após estes momentos de grande sorte mas, em geral, o preparo que você
precisa para quando as boas coisas acontecem é mínimo – parece que em nosso gene
fomos feitos para lidar com elas. Você deve apenas estar atento para avaliar
rapidamente quais habilidades não possui e adquirí-las o mais rápido possível
enquanto usufrui de sua nova e boa condição. Em geral essas competências estão
nas áreas de alfabetização financeira e preparo psicológico. Afinal, sucesso não
traz felicidade, apenas permite a você chorar em Roma, Paris, Milão, Nova
York...
Mas... e quando as más coisas acontecem ? Por exemplo: você se prepara para ser
um dos principais executivos de uma multinacional e no meio de sua trajetória a
empresa vai à falência. Ou é adquirida por outra onde se depara com alguém que
está exatamente na mesma direção que a sua, com a diferença de que ele é
conhecido pelo novo CEO da companhia, aquele que substituiu o que conhecia você.
E estes nem são os problemas mais graves que podem ocorrer. A história fica
séria quando você tem de encarar a morte ou a grave enfermidade de um ente
querido – pai, mãe, cônjuge, namorada ou grande amigo, por exemplo. Ou então
quando você mesmo é acometido de uma grave enfermidade que joga seus planos para
o segundo lugar, enquanto você se preocupa com algo “um pouco” mais importante:
manter-se vivo !
Nestes momentos o conhecimento não é o elemento que conta, pois mesmo que saiba
que deva se manter em paz para enfrentá-los, “manter-se em paz” é o problema.
Saber é diferente de fazer. Somente fazer é fazer ! Como “manter-se em paz”
quando as coisas ruins estão acontecendo ? Ou quando o período de adversidades
parece infindável ? Nestes instantes você percebe que seu equilíbrio é mais
complexo do que imagina. Muitos se perguntam: quais são os pilares que me
sustentam ? Pilares emocionais, psicológicos, financeiros, profissionais,
físicos, espirituais, ontológicos, entre outros, seria a resposta. Entretanto,
se fôssemos o teto de um grande edifício, então poderíamos escolher vigas que
suportariam a ausência ou a deficiência de outras. Muitas pessoas se vêem deste
modo. Ou seja, dizem algo como: “Minha vida profissional não vai bem, mas pelo
menos estou casada”. Ou ainda afirmam: “Meu casamento não vai bem, mas pelo
menos estou trabalhando numa grande empresa e ganhando muito dinheiro”. E assim
se mantêm até que as más coisas acontecem.
São nestes instantes que percebemos que não somos um equilíbrio estático, mas
dinâmico. Isto é, não há pilares que possam substituir outros. Pelo simples
motivo que não há pilares. Não somos um teto, somos mais parecidos com a roda de
uma bicicleta. Sendo assim, nossas dimensões devem ser vistas como os aros desta
roda. Ao girá-la, como o movimento da vida, não importa qual aro está quebrado,
tudo irá trepidar quando for o momento dele sustentar o peso da bicicleta – a
sua vida. Do mesmo modo que não adiantaria reforçar os demais aros se um deles
estivesse quebrado em uma roda, não faz sentido trabalhar mais se o seu problema
é de relacionamento com a pessoa amada. Ou exercitar-se mais quando seu problema
é de caráter espiritual.
Somente o conserto do aro que está quebrado é que fará a bicicleta parar de
trepidar.
Quanto mais se interessar em conhecer todos estes aros e como fazer para
desenvolvê-los de forma integrada, mais irá levar-se para um caminho que o
conduz à serenidade em todos os momentos, bons ou não. Deste modo estará se
preparando para a incerteza. O desenvolvimento da consciência de suas várias
dimensões, a observação de que você faz parte de uma unidade maior chamada
Humanidade é que o fará estar preparado para escrever seus planos mas estar
atento para adaptá-los sempre que o inesperado ocorrer. E quando ele vier poderá
continuar a andar em sua bicicleta, com a mesma elegância e dignidade dos bons
momentos.