História do Conceito de Doenças Psicossomáticas

Por Dr. Wagner Paulon

20/04/2008

 

Medicina psicossomática é um novo termo, mas descreve uma concepção da medicina tão velha como a própria arte de curar. Os médicos sempre souberam que a vida emocional tinha algo a ver com a doença, mas os conceitos estruturais introduzidos por Virchow levaram a separar a doença da psique humana e a considerá-la como sendo apenas uma perturbação de órgãos e células. Com esta separação das doenças em mui diversas moléstias, veio a formação dos especialistas para atenderem às diversas enfermidades. Com os especialistas surgiu o emprego dos instrumentos de precisão e teve início a mecanização da medicina.

A medicina atual limita-se ao estudo do organismo como um mecanismo fisiológico, evidenciado pela química do sangue, pela eletrocardiografia e outros métodos de investigação, mas não revelando e, em verdade, freqüentemente conservando pouco significativo, o fundo psicológico do paciente, o qual não foi considerado tão científico como os resultados dos estudos de laboratório. Este período pode, em verdade, ser referido como a "idade da máquina da medicina". Não se pode negar que notáveis desenvolvimentos ocorreram durante este período de ascendência do laboratório, mas deve ser admitido também que o lado emocional da doença foi quase inteiramente negligenciado.

No estudo das doenças psicossomáticas (menos de um século) o conceito de uma única causa específica, foi gradativamente dando lugar ao ponto de vista moderno de fatores variados atuantes. Os primeiros trabalhos não faziam distinção entre conversão histérica e reações psicossomáticas.

As figuras centrais no campo da medicina psicossomática foram Cannon, Deutsch, Selye, Dunbar, Alexander, Mirsky, e Wolf. Cannon apresentou excelentes evidências fisiológicas de sua hipótese da "luta ou fuga", expondo o papel da secreção de epinefrina. Deutsch pensou que um órgão específico era sensibilizado no início da vida por um trauma, e por isto, acompanhado de reação emocional (organo-neurose). A "unidade psicossomática" então criada, achava-se posteriormente disponível para responder a vários conflitos.

O conceito de "doenças de adaptação" de Selye enfatizou o papel do sistema hipófise-suprarenal em sua reação ao stress como sendo responsável por várias doenças. O perfil específico de personalidade de Dunbar ("caráter hipertensivo", "personalidade ulcerosa") exprimia correlações estatísticas entre doenças e tipos de personalidade, por exemplo: trombose das coronárias e tipos competitivos, autoconfiantes e agressivos. Estudos posteriores, entretanto, não confirmaram os trabalhos de Dunbar.

Franz Alexander introduziu o conceito fundamental de "conflito psicodinâmico" subjacente (especificidade do conflito): haveria relações específicas entre certas constelações emocionais e certas respostas fisiológicas, por exemplo: o desejo de receber afeto (conflito de dependência) e ulcera péptica ou o medo da separação materna e asma. Os conflitos podem mudar em um paciente no decorrer dos anos. Deste modo, pode-se explicar duas desordens psicofisiológicas em um mesmo paciente (artrite reumatóide e ulcera péptica, asma brônquica e doença coronariana).
Além do trauma emocional, do perfil da personalidade e do conflito emocional, também fatores constitucionais foram valorizados. Os estudos de Mirsky sobre a variabilidade individual da secreção cloridropéptica, constituem importantes contribuições nesta área.

Sterwart Wolf, foi responsável por um novo enfoque: múltiplas forças convergindo no “paciente, agora" - incluindo forças biológicas, psicológicas, sociais, econômicas, hereditárias, familiares, ambientais etc. Esta corrente enfatiza Componentes etiológicos multifatoriais que interagem e produzem alterações através de complexos mecanismos fisiológicos e tieuroquímicos.


Dr. Wagner Paulon - Formação em psicanálise (Escola Paulista), mestre em psicopatologia (Escola Paulista), psicologia (Saint Meinrad College) USA, pedagogia (FEC ABC), MBA (University Abet) USA, curso de especialização em entorpecentes (USP), psicanalista por muitos anos de vários hospitais de São Paulo.