Feio é se achar feio
Por Marcus Facciollo
12/11/2009
Achar-se feio. Ô coisa ruim! Olhar-se num espelho e não gostar do que vê, ter
vergonha de sua aparência, evitar se mostrar, aparecer em fotos, não se
aproximar das pessoas por achar que elas vão querer sair correndo ou o
desprezarão por sua feiura, retrair-se num mundo de solidão e tristeza. Achar
que a grande maioria é mais bonita que você, que seu rosto não tem nada de belo,
que seu corpo é desengonçado, ou gordo, ou magro, ou torto... tantas coisas
erradas! Assim é difícil ser feliz, satisfeito consigo e viver bem.
Mas... o que é ser feio, o que é feiura? São conceitos absolutos? Ou, na
verdade, o conceito de feiura é algo relativo, que varia de pessoa para pessoa,
sociedade para sociedade, época para época.
Em nossa sociedade atual, existe um padrão determinado de beleza, com variantes,
e quem não se enquadra pode pensar que é feio. A imprensa, o comércio, grupos
sociais contribuem para reforçar esse padrão e a ideia de desajuste e
insatisfação de quem nele não se enquadra. Se quem não se enquadra no padrão
estiver com a autoestima comprometida, for inseguro, então, a coisa vem com
força.
Feiura e beleza são conceitos, na verdade, relativos, que variam, sim, de tempos
em tempos e de pessoas para pessoas. O que é considerado feio hoje pode já ter
sido considerado bonito em outro momento ou sê-lo por outro grupo de pessoas.
Lembro-me sempre do que uma amiga me contou. Faz um tempo, ela viu uma
reportagem na televisão sobre a ilha de Tonga, na Polinésia. Lá, o padrão de
beleza física para as pessoas é estar acima do peso, serem obesas, até. Nessa
mesma reportagem, quando uma pessoa, estrangeira e mais magra, andou pelas ruas
do local, os habitantes ficaram comentando como ela era feia, alguns até tiraram
sarro da pessoa. Isso parece não mudar em quase lugar nenhum do mundo, criticar
e menosprezar quem está fora do padrão! Ai, ai, ser humano... Nem precisamos ir
tão longe, para Tonga. Até o início dos anos 90 do século passado, aqui no
Brasil, a maioria das mulheres achava bonito ter seios de pequenos a médios, e
conheço várias pessoas que na época fizeram cirurgia para redução do tamanho das
mamas, algumas por motivo médico, porque tinham seio grandes e isso prejudicava
a coluna, outras por razão estética mesmo. Alguns anos depois, a coisa mudou
totalmente. Influenciadas por um padrão de beleza importado, principalmente dos
EUA, muitas mulheres começaram a colocar silicone nos seios para aumentá-los,
fazendo isso até os extremos do exagero. Ou seja, será que temos de ficar à
mercê de padrões sazonais de beleza para sermos aceitos e nos sentirmos bem?
Todo mundo um dia ou outro acorda, olha-se no espelho e pensa "Nossa, como estou
horrível!". Ok, tudo bem, isso acontecendo uma vez ou outra, num momento de
baixa na autoestima, no astral, num período de tristeza, passa. Mas todo dia
olhar-se no espelho e achar-se o rei ou rainha da feiura indica que algo não vai
bem dentro da pessoa, e isso precisa ser trabalhado. É um problema afetivo, de
autoestima, de falta de confiança em si, em seu valor, potencial. Nessa hora é
necessário um exercício de revisão de conceitos e vida, sobre si, tentar
descobrir o que o está colocando nesse estado tão triste. Normalmente, a pessoa
não se acha feia por ser fisicamente quem é, mas por motivos interiores que
precisam se resolvidos para que ela recobre a autoaceitação, apreciação, o amor
por si e pelo que é física e interiormente.
A beleza que realmente importa é a de dentro, da mente e do espírito. Claro, não
é por isso que se vai abandonar o cuidado com a aparência externa e só investir
no mundo interior. Cada ser humano é um todo, que compreende corpo, mente e
espírito, e todos esses elementos precisam ser cuidados da melhor forma para que
vivamos bem e felizes. Supervalorizar um desses aspectos em detrimento de
outro(s) é um erro, bastante comum, e demonstra que a pessoa está com
dificuldade em lidar com algum(ns) dele(s). Uma pessoa que supervaloriza a
beleza exterior, por exemplo. Aquele ser narcisista, que se acha lindo, mais
lindo que qualquer um. Normalmente, essa pessoa tem um problema de baixa
autoestima, sente um vazio interior, e pretende suavizar essa sensação
investindo na construção de um visual perfeito. Ou há insegurança quanto a si
mesmo, a pessoa compra um padrão social de beleza e acha que se segui-lo à risca
será mais bem aceito pelo grupo e, por conseguinte, mais feliz. Só que nada
disso adianta, a pessoa pode estar externamente bonita mas lá dentro continua
com seus problemas não resolvidos.
Se alguém não gosta de algum aspecto externo próprio, pode trabalhar para
melhorá-lo, sem problema nisso. Como já dito, somos seres multifacetados, com
interior e exterior, que merecem ser cuidados. Mas achar que investir só em
beleza externa resolve algum problema interno, mais profundo, isso é ilusão. Uma
mudança positiva no visual pode levantar a autoestima, sim, mas só isso não
soluciona todas as dificuldades interiores.
Todo mundo tem sua beleza pessoal. Em uns, ela pode ser mais percebida na
aparência, em outros, no modo de ser, de agir. Outros têm equilíbrio nesses dois
aspectos. Só que, com certeza, a beleza que mais faz a diferença, tanto no bem
estar da própria pessoa como para quem convive com ela de maneira sadia, é a de
dentro. Se você está satisfeito consigo, com o que é, com a vida que leva e se
ama, vai se olhar no espelho e gostar do que vê, na maioria das vezes. Vai ser
alguém querido pelas pessoas bacanas que também possuem essa beleza dentro
delas, que são as pessoas que importam e que podem trazer algo positivo para
você. Aquelas pessoas que supervalorizam a beleza física e pouco cultivam a
interna, se o acharem feio, problema delas, são gente que com certeza não teria
muito a acrescentar-lhe num convívio mais constante. Deixe-as com toda a
"beleza" que têm, lá no cantinho delas, curtindo a inquietação e a insatisfação
que residem em seu aspecto íntimo e que tentam maquiar com um visual
supercaprichado.
Se você se sente feio, procure se reavaliar, conhecer melhor suas qualidades,
valorizá-las, ache sua beleza singular. Não tem que seguir padrão nenhum, só tem
que seguir o que de verdade descobrir, dentro de si, que pode fazê-lo ser mais
feliz. Invista no seu crescimento como pessoa, no crescimento intelectual,
afetivo, cuide também de seu exterior com o carinho que ele merece; se algo não
lhe agrada nele, pode melhorar, mas sem ficar obcecado pela aparência. Quando se
sentir mais confiante, não vai deixar de fazer as coisas que quer porque tem
vergonha de sua aparência, vai sim é se achar bonito, sentir-se bonito por
dentro e por fora, com direito e munição para ir atrás do que deseja. Pode
parecer clichê, mas a verdadeira beleza, a mais forte, é aquela que você
transmite com seu senso de justiça, afetividade, polidez, sabedoria, simpatia.
Isso não é papo de consolação para gente feia. Primeiro que, como já exposto,
feio é algo muito relativo, e não existe feiura absoluta. Segundo, é só prestar
atenção na vida, com boa vontade, e perceber se não é mais agradável estar ao
lado de uma pessoa exteriormente não tão "bela", mas interiormente brilhante, do
que ao lado de alguém que parece uma estátua de um deus grego e tem o interior
de estátua de mármore mesmo, frio e duro.
Feio mesmo é achar-se feio. Se você hoje se sente assim, sem culpa por isso.
Saiba que é algo que você tem possibilidade de mudar, sozinho, com a ajuda de
outros, com conhecimento, reflexão, talvez com uma caprichadinha no visual, se
entender ser algo necessário depois de analisar-se racionalmente e mais
fortalecido psicologicamente. Mas nunca deixe de se aperfeiçoar interiormente,
quanto mais fizer isso, mais estará se tornado uma pessoa verdadeiramente LINDA!
Marcus Facciollo, Desde 1994, vem investindo no crescimento pessoal,
autoconhecimento e melhor entendimento da vida e do ser humano, seja por meio de
cursos (como os da Fundação ACL) ou de (auto)análise. Desde criança, tem vocação
para escrever e para o mundo das letras, área na qual é formado. Trabalha
atualmente como revisor de textos e publica textos de sua autoria nas áreas de
comportamento humano, relacionamentos e autoconhecimento. Autor, com Sérgio
Fernandes, do livro "A vida pode ser mais leve - conheça-se e seja mais feliz":
www.avidapodesermaisleve.com.br