A Ética do Cuidado em Saúde na Prática do Psicólogo Acupunturista

Por Susi Maria Salvador Chaves

22/03/2010

 


Universidade Federal Fluminense – UFF
Instituto de Saúde da Comunidade – CMS
Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva – PPGSC
Professores: Dimas Ribeiro e Valéria Ramos
Aluna: Susi Maria Salvador Chaves


O objetivo desse trabalho é abordar questões de bioética e biopolítica envolvidas na prática do cuidado em saúde do psicólogo acupunturista.
Num primeiro momento, como quem vai desbravando um território novo, proponho um reconhecimento da área, ou seja, um referenciamento dos conceitos a serem utilizados. Como nos fala Leonardo Boff, “ Todo ponto de vista é a vista de um ponto”, mostraremos então “o ponto de nossa vista” . Michael Foucault, considera como ética o modo do indivíduo relacionar-se consigo mesmo (2005). Um processo de reflexão sobre valores construídos socialmente e vivenciados sob as diferentes formas de poder presentes nos fenômenos de dominação em qualquer forma com que eles se apresentem: na política, na economia, na sexualidade, na instituição. O autor denomina governabilidade “ao conjunto das práticas pelas quais é possível constituir, definir, organizar, instrumentalizar as estratégias que os indivíduos, em sua liberdade, podem ter uns em relação com os outros.”
É então á partir do conceito de governabilidade que vamos discutir a ética, sendo esta a forma como o indivíduo manifesta sua liberdade em relação a si mesmo e na relação com o outro. “...a noção de governabilidade permite, acredito, fazer valer a liberdade do sujeito e a relação com os outros, ou seja, o que constitui a própria matéria da ética.” (p.286)
A Bioética vem associar tais reflexões ao fenômeno da vida biológica, traz um juízo crítico sobre valores e condições para a vida humana. Como a liberdade do profissional de saúde se manifesta no trabalho vivo em ato ao governar a si mesmo e ao interagir com o outro no momento de encontro com o usuário nos serviços de saúde.
Em nosso caso específico vamos percorrer o caminho da Acupuntura e como o profissional de saúde, aluno de Pós Graduação em Acupuntura, vai se deparando com essas questões no dia a dia de um ambulatório de atendimento e como o professor supervisor pode atuar como propulsor nessa formação.
Já Biopolítica, pode ser definida como a prática de relacionamentos entre os poderes que envolvem o campo da vida biológica humana. Segundo Foucault, as relações de poder estão presentes em todas as relações humanas. A forma como o poder se manifesta foi se diferenciando histórica e socialmente de maneira visível, sob forma de leis, ou de maneira invisível, sob forma de coersão. Segundo Baremblit (2002), o poder relacional é aquela forma de poder que se mantém na dinâmica das relações, instituindo e sendo instituinte de diferentes modos de agir.
Por instituído podemos entender como o que está posto, estabelecido. Instituinte é tudo aquilo que escapa, que foge ao pré-estabelecido. Não há,pois, nenhum juízo crítico de valor a algumas das formas, sejam instituintes ou instituídos, e também não há uma relação de permanência entre esses eles. O que hoje vem se mostrando como instituinte poderá estar instituído em outro momento, ou em outro lugar.
No recorte proposto aqui, a acupuntura como prática de cuidado em saúde no Ocidente esteve como instituinte e hoje está instituída pela Organização Mundial de Saúde como prática complementar a ser praticada pelos profissionais de saúde de diferentes áreas de formação. Há porém, um outro movimento de poder instituinte que vem buscando instituir a prática de acupuntura apenas para profissionais médicos. Esse porém, não será o foco proposto nesse momento. Pretendemos discutir a forma como os diferentes poderes se manifestam nas relações entre os profissionais e os usuários no ambulatório de atendimento em acupuntura. Seja sob forma de poder de soberania, aquele em que o indivíduo está submisso ao soberano e cabe a ele a decisão do fazer viver ou deixar morrer , ou seja sob forma do poder disciplinar, em que o corpo que atende à demanda socialmente criada tem um valor, ou ainda, sob forma de biopoder, controlando reprodução, fecundidade, longevidade. (Foucault,2005).
Como referenciais de análise do trabalho em saúde, os termos Bioética e Biopolítica se mostraram como conceitos intercessores, ou seja, segundo Deleuze, produziram um efeito de desestabilização, de perturbação pelo que ocorre “entre” (pacientes, profissionais, alunos, professores). Atuando como professora supervisora no ambulatório de acupuntura da Pestalozzi, ao refletir sobre tais conceitos percebi uma certa inquietude que gerava insatisfação e ao mesmo tempo motivação para a continuidade. Uma estranheza precisava ser aprendida. Aceitar a incompletude da “razão” , perceber e ensinar que política não é sinônimo de coersão e que ética é mais reflexão do que normatização.
A acupuntura é uma prática milenar que se constituiu sobre um outro tipo de racionalidade, o pensamento oriental, e quando ela se ocidentaliza, enfrenta riscos e embates a todo instante. Profissionais em saúde formando-se acupunturistas. Profissionais de diferentes áreas mas que foram formados por uma mesma lógica biomédica hegemônica.
Uma lógica que prioriza o imediatismo e o poder soberano. Que tipo de juízo crítico estes profissionais ocidentais vão formando para atuar em acupuntura? Como utilizar desta ferramenta em saúde que privilegia a prevenção, por exemplo, ao tratar pacientes com patologias crônicas ? Procedimentos para melhorar o processo digestivo de pacientes que resistem a mudar hábitos alimentares. Estaremos “cuidando” para que continue seu mau hábito ? Procedimentos para melhorar a libido em mulheres cujo marido está impotente. Será incentivo para aumentar a insatisfação? Potencializar a sexualidade em um paciente compulsivo por sexo ? São algumas das questões que surgem rotineiramente no ambulatório de acupuntura e precisam fazer parte das discussões de supervisão, além do ensinamento técnico da prática de acupuntura, é necessário pensar na ética desse profissional que estamos formando.
A prática do cuidado em saúde é influenciada pelas normas estabelecidas dentro de limites bem restritos. Quem decide o modo de fazer o cuidado é o próprio trabalhador em ato, no seu processo de trabalho. É no encontro que a relação se estabelece e se delineia, partindo como referenciais a ética, a liberdade de governar a si mesmo e a relação com o outro. É um cenário amplo e de uma dinâmica relacional onde o controle pelo que está instituído fica á margem de movimentos que vão se instituindo a todo instante. O trabalho vivo em ato é a expressão máxima da liberdade do trabalhador, podendo esse ser capturado pelas formas hegemônicas de agir, sendo reprodutor de um modelo, ou escapando a essas formas, sendo inovador e gerenciador de sua própria forma de cuidar.
No cuidado em saúde através da acupuntura tal processo não se diferencia. O acupunturista, ao deparar-se com o corpo do paciente e sua dor, tem a possibilidade de atuar no sentido de mediar a interlocução do sujeito com o seu corpo, e reconstruir com ele, através do sofrimento, sua capacidade de manter, intervir e transformar, de forma autônoma e socialmente compartilhada, a própria vida e o meio em que vive. Ou então, simplesmente, oferecer a ele a “cura” de seu mal, exercendo sobre ele o poder que lhe é outorgado pelo próprio paciente.
Pensamos porém que a acupuntura é uma ferramenta de cuidado em saúde que traz a possibilidade de recuperar no sujeito o simbólico de sua dor, transpondo a maneira narcísica com a qual a subjetividade moderna se inscreve. O campo da saúde hoje é atravessado por forças que seduzem e capturam os sujeitos, que se “asujeitam” por meio de seu próprio corpo ( procedimentos que utilizam a tecnologia para melhorar o desempenho do corpo biológico, ou até mesmo para substituir esse corpo) ou da ação, atitudes impulsivas que são os registros por excelência de seu mal estar (manifestações comportamentais que vêm emergindo de maneira alarmante na sociedade).
A Filosofia chinesa parte do pressuposto de que corpo/mente/emoção são manifestações de uma mesma substância em diferentes graus de materialidade. Não há o dualismo psicofísico que há no pensamento ocidental. Esta substância é o Qi, energia vital, o que se poderia comparar com o conceito de libido em Jung, “energia psíquica presente em tudo o que tende a”. A acupuntura atua no Qi através do corpo, pretendendo-se que seja avaliado em função da organização estabelecida entre os elementos que o compõe (Água, Madeira, Fogo,Terra,Metal). A saúde está no equilíbrio do movimento de Qi entre esses elementos, sendo manifestada pela ausência de queixas, sem diferenciar caso sejam de ordem corporal ou emocional. O corpo é tido como um microcosmo, regido pelas mesmas leis do macrocosmo. Cada um dos pontos de acupuntura foi concebido em sua função e efeito abrangendo os três níveis do indivíduo. Os meridianos, caminhos por onde circula o Qi, percorrem todo o corpo e foram estabelecidos como metáforas do relevo da China, ou de acordo com a função equivalente na história social deste país. Existe por exemplo o ponto do meridiano da Vesícula Biliar,o VB 39, que em chinês ( Xuanzhong) significa Sino Suspenso. Nos tempos antigos crianças usavam uma faixa nesse local com um sino pendurado e uma das funções do ponto é revitalização, nutrição da medula, que na acupuntura é o substrato para a formação do cérebro. Temos que lembrar que o código de linguagem chinês é um registro simbólico e não de signos como a linguagem ocidental. Por exemplo, a palavra Terra é escrita desta forma, composto por duas linhas horizontais e uma vertical. A linha horizontal de cima representa o solo superficial e a segunda linha o subsolo. A linha vertical representa todas as coisas que são produzidas pela terra. Assim o caractere representa as duas qualidades principais da Terra: nutrição e estabilidade. Na acupuntura, Estômago e Baço-Pâncreas compõem esse elemento e suas patologias estão relacionadas ao sistema digestivo e também a digerir ,transformar e assimilar emoções e pensamento, como nos processos mentais de aprendizagem ou preocupação.
Temos então um modelo de cuidado em saúde que se estrutura num corpo simbólico e que interfere neste corpo através de estímulos em determinados pontos selecionados para que este restabeleça o equilíbrio e deixe de manifestar o sintoma – físico ou psíquico.
Como supervisora de alunos profissionais em saúde num ambulatório escola em acupuntura, atendemos um número que gira em torno de 30 pacientes por dia que realizam seus tratamentos de lombalgia, cervicalgia, gonalgia, e muitas outras algias de corpo e também pacientes que chegam com queixas psíquicas como estresse, insônia, tensão pré-menstrual, depressão, esquizofrenia, transtorno bipolar, fibromialgia. Particularmente desenvolvo uma pesquisa de acupuntura no tratamento de crianças hiperativas , com distúrbios de aprendizagem, psicóticas e com comprometimentos neurológicos.
O indivíduo quando chega até nós, traz em si uma demanda de saúde, como se nós,profissionais, fôssemos dotados de um poder (o que antes era dado a um soberano e neste momento é repassado para nós) capaz de solucionar a dor que ele não suporta mas que julga-se incapaz de resolver.
Acontece que a acupuntura geralmente não é o primeiro recurso a ser procurado aqui em nossa sociedade. Muitos pacientes vêm porque já tentaram de tudo....e então os médicos recomendam a acupuntura; outros chegam para diminuir a quantidade de medicamentos para dor ou para o sono, já que a acupuntura é reconhecidamente eficaz no tratamento da dor e da insônia ou do estresse. Muitos têm medo de agulha, e há ainda alguns que fazem tratamento há 1 ou 2 anos porque se sentem muito bem mas suas dores voltam quando param a aplicação. Porém há também no ambulatório alguns diferentes casos, que escapam ao padrão de algias clássico, como: crianças tratando enurese; mulheres tratando sintomas de tensão pré-menstrual; mulheres tratando infertilidade, homens tratando impotência; tabagismo; obesidade .
Ocorrem casos em que pacientes buscam o tratamento apenas como prevenção de doenças, ou para evitar aumento do grau de miopia, ajudar no controle hormonal durante a menopausa, diminuir os tremores do Parkinson, melhorar a memória nos idosos e mesmo a performance nos estudos. Observamos também que alguns pacientes chegam por queixas bem definidas em algias no corpo, e, quando estas são resolvidas, passam a ter queixas emocionais, como ansiedade , irritabilidade ou depressão.
Ora, sendo a acupuntura reconhecida pelo Conselho Federal de Psicologia desde maio de 2002, podemos refletir um pouco sobre a concepção de corpo a que estamos nos referindo e a que tipo de cuidado em saúde o Psicólogo Acupunturista se propõe.
A dicotomia corpo-alma sempre esteve presente no pensamento dos filósofos ocidentais. A essa diferença e separação em partes material(corpo) e espiritual(alma) é conhecida como dualismo psicofísico, ou seja, a dupla realidade da consciência separada do corpo.
Já no pensamento grego, no século V a.C., com Platão, essa dicotomia se fazia presente. Para ele, a alma antes de se encarnar, teria vivido no mundo das idéias, onde tudo conheceu de maneira intuitiva, sem precisar usar os sentidos. A alma se une ao corpo por necessidade natural ou expiação de culpa, tornando-se então, prisioneiro dele. A alma humana passa a se compor de duas partes: uma superior – a alma intelectiva – e outra inferior – a alma do corpo - .essa alma inferior acha-se ainda dividida em duas: a irascível, impulsiva, localizada no peito e a concupiscível, centrada no ventre e voltada para os desejos de bens materiais e apetite sexual.
Para Platão o conhecimento verdadeiro está na alma superior e todo o drama humano consiste na tentativa de domínio da alma superior sobre a inferior. Se a alma superior não conseguir controlar as paixões e os desejos – o que é sensível, escraviza, conduz à opinião e perturba o conhecimento verdadeiro – o homem torna-se incapaz de comportamento humano adequado. “Corpo são em mente sã.” , célebre frase de Platão, referindo-se que o corpo saudável, de posse da saúde perfeita, permite que a alma se desprenda dos sentidos para melhor se concentrar na contemplação das idéias. Dessa maneira, a fraqueza física impede a vida superior de espírito. Não é por acaso que a Grécia é o berço das olimpíadas, origem da valorização dos esportes, ginástica e exercícios físicos, prática porém justificada para manter a superioridade do espírito sobre o corpo.
Esta prática de exercícios físicos, que no início era tida apenas para o treinamento de atletas, adquire o sentido de disciplina espiritual de auto-controle. Com o advento do cristianismo, passa a significar o controle dos desejos pela renúncia aos prazeres do corpo, o que podia ser feito através de jejum, abstinência e flagelações, por exemplo com a prática de chicotear o próprio corpo. Tais comportamentos se baseiam na interpretação dos pensamentos racionais do pensamento de Platão, partindo do princípio de que o corpo é sinal de pecado e degradação – ascetismo. Ascede em grego significa “exercício” – o que de início era apenas exercício passou a ter cunho de poder pelo auto-controle.
Santo Agostinho ( 354 – 430 d.C.) busca inspiração no neoplatonismo, encaminhando-se para a conversão ao cristianismo e posteriormente elabora a grande síntese teológica cuja influência será decisiva na transição do final da Antiguidade para a Alta Idade Média. Interpreta corpo-alma como uma unidade. O corpo é a dimensão terrena e mortal da alma imortal. A alma pode governar o corpo através do livre-arbítrio e auxílio da graça divina. Porém, exatamente por ser livre, o homem pode eleger o mal e pecar. Pecado é a transgressão intencional de um mandamento divino – dizer, fazer ou desejar algo que seja contrário à lei eterna. Mantém assim o drama humano como o esforço contínuo contra o desejo intenso de bens ou gozos materiais, inclusive o apetite sexual.
Temos então que na Idade Média o corpo era considerado inferior mas era também considerado criação divina, mantendo um certo grau de sacralidade. No Renascimento a noção de corpo começou a mudar. A Igreja impediu essa mudança enquanto pôde. Por exemplo, a dissecação de cadáveres era considerado sacrilégio por tentar desvendar o que Deus teria ocultado de nosso olhar. Houve porém a quem o controle da igreja não pôde impedir de avançar. Podemos citar Leonardo Da Vinci (Séc. XV) e Versalius (Séc. XVI) que ousaram desafiar a tradição e contribuíram para novas concepções de anatomia.
Esse outro lado “profano” pode ser compreendido na perspectiva da revolução científica promovida por Bacon,Descartes e Galileu. O corpo passa a ser objeto da ciência e dele é retirado o componente religioso, passando a considerar apenas sua natureza física e biológica.
A filosofia cartesiana traz uma nova abordagem a respeito do corpo, mantendo e explorando ainda o dualismo psicofísico: o ser humano é constituído por duas substâncias distintas. A substância pensante, de natureza espiritual, o pensamento e a substância material, o corpo.
De certa forma o dualismo platônico se faz presente. A diferença está em se tratar o corpo como objeto, associada à idéia mecanicista do ser-humano máquina.
“Deus fabricou nosso corpo como máquina e quis que ele funcionasse como instrumento universal, operando sempre da mesma maneira, seguindo suas próprias leis.” Descartes
Com o desenvolvimento das ciências, o modelo mecânico vai se tornando cada vez mais elaborado, porém mantém-se o corpo associado à mensão material, corpórea e sujeito ás forças determinantes da natureza. O indivíduo deixa de ser responsável pelo próprio destino. São pressupostos materialistas que tornam-se cada vez mais relevantes, representando certo impecilho para o desenvolvimento das ciências humanas no final do século XIX, em razão da dificuldade em restabelecer as ligações entre as duas realidades que compõem o ser humano.
Somente no Séc. XX surgiram correntes filosóficas que tentaram superar a dicotomia corpo-consciência para restabelecer a unidade humana.
Baruch Espinosa (1632-1677) foi uma exceção. Filósofo judeu holandês escreveu várias obras mal compreendidas e quase nunca lidas tanto no seu século como nos subseqüentes. Considerado por muitos um filósofo determinista no momento em que negaria a liberdade humana, ao contrário, ele faz uma crítica a toda forma de poder, tanto político como religioso. Busca esclarecer os obstáculos à vida em liberdade, querendo descobrir o que leva o homem à servidão e à obediência, o que permite e o que impede o exercício da liberdade.
Traz como inovador para seu tempo a teoria do paralelismo. A relação existente entre corpo-espírito não é de causalidade, mas de expressão e simples correspondência: o que se passa em um deles se exprime no outro. Nem o espírito é superior ao corpo, nem o corpo determina o espírito.Alma e corpo exprimem, no seu modo, a mesma coisa. Desse modo, tanto alma como corpo podem ser ativos ou passivos. Quando ativos, o somos de corpo e alma, sendo autônomos e senhores de nossa ação. A virtude da alma, sua força e poder, consiste na atividade de pensar, de conhecer. Quando está então voltada para si mesma, capaz de produzir idéias, passa a uma perfeição maior, percebe-se ativa e é afetada pela alegria. Quando diante de uma situação a alma não consegue entender, percebe-se impotente, causando o sentimento de diminuição e tristeza(é a alma passiva).
É da natureza do corpo afetar outros corpos e ser afetado por eles. Essa relação de afecção determina duas posições diferentes: o corpo que nos afeta pode se “compor” com o nosso, a sua potência(capacidade de agir) se adiciona à nossa, provoca um aumento da nossa potência e passamos a uma perfeição maior, tendo como resultado a alegria e um corpo ativo. Mas se ao contrário, há um encontro entre dois corpos que não se “compõem”, ocorre uma diminuição de nossa potência, gerando tristeza e um corpo passivo.
No sentido etmológico, a palavra paixão significa “padecer”, “sofrer” e Espinosa denomina tanto a alegria como a tristeza de paixões. Nos dois casos, não somos nós que agimos, a ação tem uma causa exterior e nós permanecemos passivos. O que as difere é que paixão alegre nos potencializa, ou seja, nos aproxima do lugar em que nos tornamos senhores da ação. Enquanto que a paixão triste nos afasta cada vez mais da nossa potência de agir, como geradora de ódio, aversão, temor, desespero, indignação, inveja, crueldade, ressentimento.
Fica claro então que o dilema do homem é evitar a paixão triste e propiciar a paixão alegre. Mas para Espinosa, diferentemente de outros filósofos que estabelecem hierarquias e pretendem subjulgar as paixões à razão ou vice-versa, liberdade é autodeterminação, é autonomia. Somos autônomos quando o que aconteceu em nós é explicado pela nossa própria natureza e não por causas externas. Esta conquista se faz quando conseguimos estar mais ativos, sobrepondo as paixões alegres sobre as tristes.
A fenomenologia vem com o conceito de intencionalidade tentar superar as dicotomias corpo-espírito, consciência-objeto e indivíduo-mundo. O corpo é visto como o primeiro momento da experiência humana. Ao estabelecer contato com outra pessoa, o corpo se revele como “eu sou”. O movimento corporal não é mecânico. O gesto diz algo e revela o sujeito. É um corpo humano que revela uma facticidade no sentido de “estar lá com as coisas” mas é também acesso às coisas e a si mesmo, na possibilidade de transcendência. Pode-se argumentar que a dor e a doença são então manifestações de pura corporeidade. Porém, a facticidade nunca se separa da transcendência, que mostra o sentido que o indivíduo dá à sua doença ou no uso que o indivíduo faz dela.
A doença traz outros ocultos sentidos. Pode ser útil para despertar a atenção do outro, a sua complacência, o abrandamento de sua severidade. Pode também representar a forma sádica pela qual sacrificamos os que nos rodeiam, ou ainda a forma de nos esquivarmos de certas obrigações. Podem até mesmo tornar-se condição de domínio de si, como no caso de Demóstenes, quando a gagueira o incita a ser um grande orador.
Freud, no Século XX desenvolveu sua teoria do funcionamento da mente e demonstrou como o corpo pode ser uma forma de somatizar os conflitos internos, tais como paralisias e alucinações na Histeria.
A filósofa norte-americana Susan Sontag em seu livro A Doença como Metáfora, analisa por exemplo a doença clássica do Séc.XIX, a tuberculose a mais recentemente, o câncer.
“Qualquer doença encarada como um mistério e temida de modo muito agudo será tida como moralmente, se não literalmente, contagiosa.”
As pessoas acometidas pela tuberculose em sua época, ou por câncer posteriormente, eram afastadas de seus familiares e objeto de descontaminação por parte das pessoas da casa, como se fossem doenças transmissíveis. O mesmo aconteceu recentemente com a AIDS, tendendo a estigmatizar as vítimas. “Mas para afastar as metáforas,não basta abster-se delas.É necessário desmascará-las, criticá-las, atacá-las, desgastá-las.
Há também o corpo usado para debilitar o espírito e curvá-lo ao poder superior. A história registrou diversos exemplos de suplícios sofridos pelos que ousaram desafiar as regras estabelecidas como tabus pelo poder hierárquico. Franz Kafka, no conto A Colônia Penal, ilustra o que Michael Foucault descreve como poder disciplinar. Kafka relata o prisioneiro que tem sua pele marcada com uma máquina tipo estilete, com a lei que foi por ele transgredida. “Respeite seus superiores”, de modo que ele mesmo não a veja, bastando conhecê-la na própria carne e decifrá-la com suas feridas, sem saber nem mesmo ter sido condenado, sem direito de defesa.
Em sua análise, Foucault(1926-1984) faz um levantamento de documentos dos séc. XVII e XVIII descrevendo de que forma o poder vem disciplinando os corpos.” O corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo corpo produtivo e corpo submisso”. Há um tipo de poder disciplinar diferente daquele que antes existia e era exibido nos conventos e nas oficinas. Trata-se de um poder que volta-se para fins utilitários, regido pelo modelo capitalista de produção. É também um poder não dito em linhas, mas inscrito nas entrelinhas da organização e do controle do tempo e do espaço. Um poder que não está somente no aparelho do Estado, mas em diferentes pontos do próprio seio da sociedade como nos colégios,hospitais, asilos, fábricas, quartéis e prisões.
Com esta tão longa tradição de desvalorização do corpo e das paixões, de seu controle e normatização, temos à partir da década de 1960 um esforço de libertação das amarras do corpo. Mudanças que não seguem o viés do amadurecimento do sujeito, e nem ao menos a recuperação da autonomia em equilíbrio no cuidar de si.
No final do Séc. XX vemos surgir o fenômeno da corpolatria, do endeusamento do corpo. Observa-se o cultivo de formas do corpo de maneira impositiva e tirana, sob regime de controle alimentar, exercícios físicos, modeladores, plásticas, estratégias essas que não levam à satisfação e seguem um modelo de consumo em gerações que têm medo de envelhecer e morrer.
Nesse processo, cresce um tipo de individualismo narcisista em que cada um vive para si próprio.Para o filósofo Gilles Lipovetsky:
“O narcisismo realiza uma missão de normalização do corpo: o interesse febril que temos pelo corpo não é de modo nenhum espontâneo e livre, obedece a imperativos sociais como a linha, a forma, o orgasmo, etc. O narcisismo joga e ganha todos os tabuleiros, funcionando ao mesmo tempo como operador de desestandartização e como operador de estandartização, sem que esta última se apresente jamais como tal, mas como sujeição às exigências mínimas da personalização: a normalização pós moderna apresenta-se sempre como único meio de o indivíduo ser realmente ele próprio,jovem esbelto,dinâmico.”
A Bioética hoje faz um convite para pensarmos a mutação que concerne ao futuro humano. O modo como a aceleração do capitalismo engatou na aceleração tecnocientífica.
A geração de hoje está tendo que fazer escolhas éticas e opções tecnológicas decisivas. São questões relativas ao transumano, ou mesmo ao pós-humano. É a tecnologia não mais á serviço do homem, mas gerando um novo conceito do que é ser humano.
Esse modo de gerir subjetividades coletivas influencia fortemente o campo da saúde. O mercado altamente lucrativo do medicamento surge como principal força econômica na saúde, ao lado da tecnologia de diagnóstico. Podemos metaforizar como uma “guerra terapêutica”, com fabulosas campanhas de marketing, formulando campanhas que modulam hábitos dos profissionais e dos usuários, buscando a concepção “fast food” no consumo em saúde.
A ética do psicólogo acupunturista gira em torno dessas questões, quando o paciente chega queixando-se de sua dor. Precisamos refletir sobre a diferença entre dor e sofrimento. Enquanto queixa-se de dor, o discurso segue a lógica biologicista explicativa e capturante do sujeito, que se asujeita à sua dor, ao invés de formar-se enquanto sujeito que opera sobre seu sofrimento. A passividade domina o indivíduo quando algo em si dói, esperando que algum fator externo ou alguém “cure” a sua dor, taga-lhe a solução desejada. É a captura do sujeito pelo sistema.
O sofrimento está relacionado ao simbólico, em tornar o sujeito ativo no processo de cura, refletindo e mudando hábitos de vida que podem estar sendo agravantes em seu adoecer. É a busca da autonomia do sujeito na prática do cuidado em saúde. Sem representação, sem transcender, sem simbolizar, a transformação ou a elaboração deixa de existir, dando lugar para o imediatismo do alívio da dor. A sociedade se prepara cada vez menos para o enfrentamento de sua dor, sem a qual não há estruturação de um sujeito autônomo.
Na acupuntura esta captura aparece no cotidiano do atendimento ambulatorial. Sendo esta técnica rica na diversidade de combinações para o tratamento, facilmente o aluno-profissional vê-se angustiado para encontrar a solução no alívio dos sintomas apresentados.
A reflexão sobre a ética do profissional de acupuntura no referido ambulatório se faz no dia a dia, no acompanhamento de cada aluno no aprendizado do atendimento aos pacientes que ali chegam. É na ação micropolítica que percebemos o fator ética nas relações que se estabelecem entre os alunos-professores-usuários em acupuntura.
Cada aluno-profissional, em sua ação cotidiana inclui sua produção subjetiva em ato, produz o cuidado em saúde através da acupuntura além de produzir a si mesmo como sujeito no mundo.
Ao entrar em contato com todo o aparato teórico que fundamenta a Medicina Tradicional Chinesa o conflito interno está subliminar ao seu comportamento. Porém, ao entrar para o campo de estágio, ao “laboratório de aprendizagem prática”, o conflito emerge para a superfície de maneira espantosa.
Com fundamentação teórica de Deleuze e Guatarri (1972,1995), é a demonstração viva da subjetividade atuando na construção do socius. O cenário do ambulatório de acupuntura torna-se fomento de aprendizado ético na formação do acupunturista. A produção das subjetividades que atuam nesse cenário que, no ato cuidador vão se construindo, é impulsionada pelo desejo, vai se instituindo pelo que pode ser chamado de “fatores de afetivação”, isto é, acontecimentos que atuam como dispositivos sociais.
Em Análise Institucional, o Trabalho Vivo em Ato vai instituindo, em um processo simultâneo de formação (cuidado-cuidador) a subjetividade do profissional-aluno. Esta subjetividade construída social e historicamente, alicerçada em encontros, vivências, acontecimentos, relações. O professor-supervisor age ali como um agenciador de desejos, capaz de operar na formação de cuidadores através da dinâmica experiência relacional.
O aluno-profissional de saúde chega com o modelo biomédico já conhecido e algumas vezes já instituído em sua prática de atendimento. Quando procura a formação em acupuntura defronta-se com um paradigma diferenciado, um modo de pensar e agir em saúde centrado no paciente, baseado na integração corpo-mente-espírito. Enquanto este novo modo de pensar está se dando na sala de aula o embate encontra-se ainda muito no campo das idéias. Quando o cenário passa a ser o trabalho Vivo em Ato, o conflito gera um grande desconforto. É a exigência de se “desconstruir”, de se “deixar esvaziar” para reaprender um novo modo de pensar a saúde.
A ética do psicólogo acupunturista compartilha desse momento. A psicologia, saber de berço questionador e reflexivo, inserida no campo de procedimentos e patologias do tipo hérnia de disco,distensão muscular,hemiplegia. Aprendendo “pontos” anti-inflamatórios, pontos que fazem o intestino funcionar, pontos que trazem a performance da ereção e ejaculação.
Sabemos que esta ética precisa ser construída, tendo como centro o campo relacional do trabalho vivo em ato. É um processo que necessita de espaços de fala, de escuta, de olhares e reflexões significativas entre alunos-profissionais, supervisores-formadores e usuários. É um agir relacional de desejos, na dinâmica sistêmica entre os diferentes atores da cena em saúde. O ser humano é um ser social, um ser relacional. Nessas relações o poder está presente de diferentes formas, num jogo de forças que vão delineando as formas de agir no mundo.É a ética que vai circunscrever até onde, ou a maneira do agir em cada um dos atores. Existem diferentes éticas, caberá a cada um de nós escolher qual delas seguir. Como enxergar a invisibilidade que se expõe na algia dita. Como incitar a percepção do sofrimento que há por detrás da dor relatada. É o exercício do olhar não somente para os corpos que ocupam papéis tão bem instituídos, mas o que está entre os corpos, o que, na linguagem da própria Medicina Tradicional Chinesa seriam os “sinais” e não os “sintomas” (sinais são os indicadores do acupunturista e sintomas as queixas trazidas pelo paciente).


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www.acupuntura.pro.br. Acesso em 15 de janeiro de 2010.