Educar os Filhos - Tarefa de Pai ou Mãe?

Por Eliane Pisani Leite

13/09/2007




Criar filhos não é uma tarefa tão fácil, hoje em dia parece que tem assustado ainda mais, principalmente os homens. Alguns pensam que é um bicho de sete cabeças. Ficam imaginando as noites mal dormidas, sua companheira stressada com os cuidados com o filho, as preocupações em manter o emprego, porque agora tem um ser totalmente dependente na casa, e sem contar que também pode acontecer um ciúme por parte do nove ser que agora divide a tenção da esposa.

Supondo que seja tranqüilo lidar com todos esses receios, e que tomando uma atitude madura todos esses problemas serão facilmente ultrapassados, resta então assumir os papéis de cada progenitor para levar adiante a tarefa de monitorar o desenvolvimento do pequeno ser que agora tem a função de ser a alegria da casa.

Antes de mais nada vamos pensar no termo FAMÍLIA, o que vem a ser família. De acordo com o dicionário: grupo constituído pela reunião de gêneros afins. Conjunto de ascendente, descendentes, colaterais e afins de uma linhagem.

Resumindo essas definições, podemos sintetizar em: pessoas com mesmos interesses e afinidades que se atraem, para constituir um novo grupo na sociedade. A profundidade de reflexão que absorve o termo afinidade, é um vasto leque, no qual todo casal deveria pensar a respeito antes mesmo de constituir e aumentar uma família.

A afinidade intra pessoal, deveria ser a mola mestra para toda nova família que se forma, pois sem ela os desajustes , problemas e transtornos que no futuro podem ocorrer são inúmeros.

Tenho visto casais que se formam, por motivos tão banais e acabam levando a vida, por não lançarem mão de outras alternativas para melhorar a vida de cada um. Nesse jogo os filhos acabam chegando, encontrando uma família mal estruturada, e muitas vezes tornando-se a ovelha negra deste núcleo.

Todo casal tem encontros e desencontros. Muitas vezes as opiniões divergem, e isto não seria motivo para desentendimentos maiores, porém o que vemos é que isso muitas é motivo até de separação, principalmente quando o casal entra em disputa de poder, e nem sempre percebem que assim o fazem.

Hoje é muito comum os papéis dentro do núcleo familiar se misturarem, haver dúvidas por parte dos cônjuges sobre quem desempenha o quê. Infelizmente não existe cartilha pronta. Em todas palestras que faço para pais, sempre me cobram essa cartilha, e a resposta é sempre a mesma, noto nos rostinhos dos jovens pais uma frustração muito grande quando dou a mesma resposta, do fundo do coração gostaria de Ter essa cartilha pronta, mas penso que seria humanamente impossível, porque isto implicaria em reunir todas as cabeças em uma só, e aí eu pergunto: o que seria da cor preta se não existisse a cor branca?. Vocês percebem como é algo difícil e delicado, em princípio até é muito interessante que se tenha opiniões diferentes, pois sempre teremos novas formas de olhar a mesma situação. Quando surgirem situações específicas, ao invés de procurarmos no manual, teremos a oportunidade de obter vários pontos de vista e optar por aquele que traduz melhor nossas forma de lidar com o problema, e isto é mágico, faz com que um papai e uma mamãe sejam sui generis, ou seja, segundo a opinião dos próprios filhos, serão os melhores pais do mundo.

Quem nunca ouviu uma criança fazer referência aos pais , ou a um deles dizendo: “Meu pai é o melhor pai do mundo”. Esta frase é muito comum, principalmente em crianças menores, porque ainda imaginam seus pais como figuras idealizadas. E este vislumbre por parte dos filhos muitas vezes faz com que os pais fiquem ainda mais ansiosos para desempenhar a contento seus papéis familiares.

Ter sintonia no casal significa, saber ouvir, respeitar opinião diversa, saber sentir o clima da situação, desenvolver a observação para ler no comportamento do outro a linguagem do corpo, da expressão, do tom da fala, é lançar mão da habilidade de raciocínio que chamamos de Antecipação, ou seja prever o desenlace da situação, ou pelo menos criar hipóteses. A sintonia implica numa cumplicidade, de saber que mesmo diante de uma calorosa discussão de idéias ou opiniões, esse momento vai passar rapidamente, ou seja logo virão as ondas tranqüilas novamente. Todo relacionamento implica nesses momentos, justamente pelo que foi comentado acima, ou seja cada cabeça é única. Se o meu companheiro não concorda comigo num aspecto, em outro ele pode concordar, e isto faz o relacionamento Ter vida, ser uma troca e não uma cola. Todo casal precisa Ter claro que em determinadas situações é necessário doar, e em outros momentos receber, isso implica em aceitar que em determinados momentos devemos deixar prevalecer a opinião do outro e esperar que em outras situações possa prevalecer nossa opinião. Desde que essa escolha não prejudique a criança, nada há de errado em tomar essa postura.

Os pais devem trabalhar como uma equipe, fazendo até revezamento. Para ilustrar esse método de trabalho, vou expor a vocês um conto de como vivem os gansos selvagens.

A história é a seguinte:

Sobre Gansos e Equipes
Autor desconhecido


Você sabe por que gansos, quando voam, sempre estabelecem uma formação "V"?

Vamos a algumas descobertas da ciência:

1. A medida em que cada ave bate suas asas, ela cria uma área de sus-

tentação para a ave seguinte. Voando em formação "V", o grupo inteiro

consegue voar, pelo menos 71% a mais do que se cada ave voasse isolada-

mente.

Pessoas que compartilham uma direção comum e um senso de equipe

atingem resultados muito mais rápido e facilmente.

2. Quando o ganso líder se cansa, ele vai para a parte de trás do "V",

enquanto um outro ganso assume a ponta.

O revezamento de esforços permite avançarmos mais facilmente nas tarefas árduas.

3. Os gansos de trás grasnam para encorajar os da frente a manterem o ritmo e a velocidade.

Incentivo e estímulo são fundamentais quando queremos manter ou melhorar o ritmo e a velocidade de nossas empreitadas.

4. Quando um ganso adoece ou se fere e deixa o grupo, dois outros gansos saem da formação e seguem-no para ajudá-lo e protegê-lo. Eles o acompanham até que suas condições melhorem e, então, os três reiniciam a jornada, juntando-se à

outra formação, até encontrar o grupo original.

Gansos, uma metáfora onde a solidariedade nas dificuldades é fundamental para o sucesso da jornada.

(FONTE: REVISTA PSICOPEDAGOGIA 14(32): 46-46,1995)

Refletindo sobre o texto, fica muito claro que a união sempre fez a força e continuará fazendo, portanto se um dos pais fica demasiadamente cansado com a rotina do bebê , é mais que certo que o outro se encarregue da situação.

Muitas vezes, só um dos pais trabalha fora, portanto fica implicito que o outro deve dar conta do trabalho em casa. Isto não é verdade, pois a função de pais pertence aos dois e não só ao que permaneceu, ou esta provisoriamente em casa. Ambos devem exercer a função de pais, e isto é importante para a formação da criança, tanto a nível de contato físico como emocional.

Nos anos 80, surgiu o termo supermãe, ou seja: aquela que pode tudo, consegue e faz tudo. Não demorou muito para que as mulheres percebessem, que isso não era bem o melhor caminho, pois o desgaste físico e mental as levava e ainda leva a um outro caminho tão evitado hoje em dia entre as mulheres, o desgaste que envelhece e trás como conseqüência doenças precoces. Mesmo sabendo disso, vejo que muitas vezes a mulher acaba por se sobrecarregar até mesmo por falta de opção, é comum o marido trabalhar até altas horas, nos fins de semana, e atualmente com o crescente número de trabalhos terceirizados, a carga horária mudou muito, sendo que mesmo nos finais de semana as pessoas acabam trabalhando até mesmo em casa para dar conta do serviço. Todos esses fatores têm tornado mais difícil o convívio familiar, em função do tempo disponível pelos progenitores, como também o cansaço físico e mental que diminui a qualidade de qualquer interação humana. Acho que todos precisam rever seus valores, para oferecer uma vida mais digna e saudável aos membros familiares.

Diante de tantos obstáculos oferecidos pelo “progresso”, precisamos encontrar a forma mais harmoniosa possível para estabelecer as tarefas de cada um, assim não sobrecarregando apenas um membro.

A parceria entre o casal, é a melhor opção para obter bons resultados, ela funciona principalmente quando o casal deixou de lado a famosa busca do príncipe e da gueixa. A vida real a dois é repleta de ganhos e perdas, como também encantos e desencantos, é necessário muita maturidade para lidar com as frustrações do relacionamento, e o que tenho observado hoje em dia, é que muitas pessoas preferem não enfrentar esses desafios. Para aqueles que conseguem ultrapassar juntos os obstáculos da vida dando valor em cada ganho e se unindo nas perdas, esses conseguem descobrir a felicidade da parceria: Ter alguém ao lado para chorar, sorrir e amar. Para tanto basta saber admitir as falhas, pedir desculpas quando erra, perdoar quando o outro errou, é necessário tomar alguns cuidados dentro do relacionamento, e é bom frisar que até os desentendimentos são importantes, pois funcionam como um alicerce para saber em que terreno se esta pisando, e assim aprender a conhecer de fato o parceiro.

É muito gratificante Ter alguém para contar nos bons e nos maus momentos, mas como toda vitória, este ganho tem um percurso a ser enfrentado.

Eliane Pisani Leite - Autora do livro: Pais EducAtivos

Pisicologia Acupuntura Psicopedagogia - pisani.leite@terra.com.br