Demitido nunca mais
Por Jerônimo Mendes
11/01/2009
Depois de trinta anos bem vividos no mundo profissional e com mais uns trinta
pela frente, posso dizer que conheço um pouco dos meandros que permeiam o
ambiente corporativo. Dominá-lo por inteiro é um desafio considerável e duvido
que isso seja possível em menos de trinta ou quarenta anos, pois o ser humano é
surpreendente em todos os sentidos e quando você imagina que sabe tudo a seu
respeito, coisas incríveis e inesperadas acontecem.
Durante a minha inesquecível jornada como empregado, principalmente nas décadas
de 1980 e 1990, eu ficava chocado com a enxurrada de demissões que ocorriam em
todas as empresas por onde passava e, independentemente das razões apresentadas,
isso sempre me deixava consternado, pois eu sabia que, nessa hora, o senso de
justiça raramente prevalecia.
Algumas eram cômicas, outras dolorosas, porém a maioria tinha pouco a ver com a
origem do problema. O fato é que as demissões eram inevitáveis e aos poucos eu
fui aprendendo a conviver com elas e extraindo lições que ainda hoje se mostram
muito úteis na profissão de consultor e palestrante. No mínimo a gente diverte o
público contando histórias. Infelizmente isso não me livrou da convivência com
profissionais completamente despreparados para a arte de demitir.
Nesse período, conheci alguns seres inescrupulosos, de sangue frio, cujo maior
deleite era demitir sorrindo, e outros que se diziam incapazes de demitir sem
antes passar por um período de tensão involuntária. Outros nunca tiveram coragem
de demitir alguém e muitos ainda preferiam transferir o problema para a turma do
RH a fim de evitar o confronto com o profissional para o qual ele nunca foi
capaz de prestar feedback, por medo, insegurança ou falta de liderança.
Demitir alguém e absorver a demissão é um processo delicado que exige equilíbrio
e maturidade, tanto para quem demite quanto para quem é demitido. E, geralmente,
essas virtudes nunca estão presentes quando mais precisamos delas, razão pela
qual as demissões são verdadeiros desastres que destroem a auto-estima das
pessoas em vez de projetá-las para um futuro melhor.
No início de 2000 eu vivi o período mais difícil da minha vida profissional
quando, por determinação da matriz, recebi a triste notícia de que a área que eu
coordenava seria transferida para outro estado. Em menos de três meses eu me vi
obrigado a demitir quase toda a equipe que eu havia dado um duro danado para
consolidar. Éramos praticamente uma família de vinte e uma pessoas - conceito
equivocado e mais tarde reformulado - que se desmantelou da noite para o dia,
onde eu, o paizão, pouco pude fazer pelos meus filhos, porém, graças ao talento
natural e à incrível capacidade de adaptação do ser humano, todos sobreviveram.
Como dizia a inesquecível mestra Maria Schirato, autora de O Feitiço das
Organizações, “empresa não é mãe”. Você conhece alguma mãe que reúne os filhos
no fim do expediente de sexta-feira para o seguinte comunicado: - meus filhos, a
situação está muito complicada, os custos subiram assustadoramente e, por
decisão da diretoria, vamos fazer uma reestruturação na família com redução de
20% do efetivo? Zezinho e Luizinho, vocês não fazem mais parte do quadro
familiar.
De uma vez por todas, não existe esse negócio de empresa-mãe. Cada vez que
alguém arrisca proferir uma barbaridade dessas na minha presença eu espremo a
pessoa. Caso ela ainda não saiba, vai saber a diferença entre empresa e sua
verdadeira mãe no dia do desligamento quando perder o crachá, o plano de saúde,
o auxílio-combustível, o vale-refeição e aquela bendita cadeira onde ela
acomodou confortavelmente o seu delicado traseiro durante mais de dez anos.
Parafraseando a mestra, mãe é aquela que divide o bife, põe mais água no feijão,
tira da boca para dar aos filhos, salta no lago para salvar o filho mesmo sem
saber nadar, se atira no rio para livrar o filho da voracidade do jacaré,
protege o filho das atitudes violentas do pai e enfrenta três dias de fila para
conseguir uma vaga na escola pública. Isso é mãe. O restante sofre de uma
vontade danada de ser mãe de verdade, portanto, nenhuma empresa pode ser
comparada a uma mãe ou a uma família.
Complicado mesmo é a vida do alienado, aquele que desconhece o limite entre o
lado pessoal e o profissional feito o indivíduo que depois de vinte e poucos
anos de bons serviços prestados na empresa, foi demitido. No dia seguinte lá
estava ele na portaria, no horário de sempre, implorando para retornar ao local.
Depois de muita conversa, ele foi autorizado a entrar por alguns minutos para
atender suas necessidades, literalmente. Acreditem que o sujeito simplesmente
não conseguia evacuar em casa, é mole?
Durante uma semana ele voltou ao local de trabalho, mais precisamente ao
banheiro, para realizar a proeza de evacuar e ainda matar as saudades da tampa
macia do vaso sanitário, acompanhado pelo segurança, é óbvio, o qual aguardava
pacientemente o sujeito na porta do banheiro até que num determinado momento
alguém decidiu que era hora de encerrar definitivamente o processo de simbiose
do infeliz com a organização.
Quanta humilhação! Não é necessário chegar a tanto. Cá entre nós, o ser humano
vale muito mais do que isso. Você conhece alguém que foi demitido e hoje se
encontra na rua da amargura, passando fome ou mendigando? Fico feliz em saber
que todos os meus ex-colaboradores, hoje grandes amigos, estão muito bem,
obrigado, alguns até melhores do que eu, graças ao seu talento, esforço, um
pouco de sorte e, é claro, uma pitada dos meus ensinamentos. Digo isso com
orgulho e quando me lembro dá até um nó na garganta.
Com o tempo eu aprendi que toda demissão tem o seu lado estimulante e doce. Se
você tiver consciência do que é capaz e acreditar piamente na volta por cima,
infinitas possibilidades se abrem. Muitos profissionais confundem a relação e se
entregam fervorosamente a uma convivência que eles insistem em chamar de
família. Quando os laços familiares se rompem, o sujeito fica perdido e não sabe
se vai para casa ou para o bar da esquina mais próximo. Eu chorei um tacho de
lágrimas e voltei para casa o mais rápido possível quando ocorreu comigo. Graças
a Deus fui muito bem recebido e ainda ganhei o melhor dos presentes, carinho e
abraços, uma das razões pela qual sou fã da minha família.
Se algum dia você vivenciar algo parecido, quer na posição de demitido, quer na
posição de cumpridor dessa difícil tarefa, lembre-se das minhas palavras. Por
experiência própria, digo que você vai sobreviver tranqüilamente e ainda sair
fortalecido para o próximo desafio. Pense nos amigos que passaram por situação
semelhante e avalie o quanto eles evoluíram em todos os sentidos. A vida voltará
ao normal muito antes do que você imagina.
Eis aqui algumas lições que me foram extremamente úteis nesse sentido e espero
que sejam úteis se algum dia precisar delas ou quando tiver que socorrer um
amigo. Torço para que você cresça profissionalmente, onde quer que esteja, porém
tenha em mente que a concorrência no mercado de trabalho é acirrada e, muitas
vezes, desleal, portanto, lembre-se:
1. Jamais lamente um fato como esse. Lamentar ou falar mal da empresa serve
apenas para provocar insegurança nas pessoas que você ama e distanciamento dos
admiradores do seu trabalho; o que você menos precisa nesse momento é de
pensamentos e atitudes negativas;
2. Em momentos de crise, o importante é manter a lucidez e o equilíbrio; pare de
se demitir mentalmente e sofrer por antecipação; se a demissão for inevitável,
considere-a como uma nova oportunidade de apresentar seu talento e energia para
quem realmente precisa deles, seja como patrão, seja como empregado;
3. Pense que sempre haverá espaço para pessoas que demonstram otimismo diante
das adversidades, para quem cultiva o sorriso nos lábios e, principalmente, para
quem sabe dizer “bom-dia”, “por favor” e “obrigado”;
4. Todas as empresas são carentes de bons profissionais, portanto, seja humilde
e ousado ao mesmo tempo, mantenha contato com os amigos e conhecidos e não tenha
vergonha de pedir, afinal, pedir não ofende; não mande o currículo para o RH,
mande o currículo para um amigo que conhece alguém do RH; utilize a sua rede de
contatos e pare de gastar com Xerox e papel;
5. Segundo Jack Welch, o executivo que revitalizou a GE, “até um pé no traseiro
te empurra para frente”, portanto, mãos à obra, currículo na mão esquerda,
celular na mão direita, carro ou o vale-transporte que ainda sobrou, sua melhor
roupa e muitos contatos, quantos forem possíveis e necessários;
6. Mantenha a fé, a esperança e o foco. Sem isso, não há currículo nem padrinho
que dê jeito. Muito otimismo, pois como dizia a avó de um amigo meu, “é no andar
da carruagem que as abóboras se ajeitam”. Se você não acredita em si mesmo, por
que alguém haveria de acreditar?
Penso que todos nascem para cumprir uma missão, seja ela qual for, portanto, é
melhor que seja num lugar onde tenhamos o mínimo de dignidade e respeito. Pare
de ser demitido, demita-se antes, não apenas da empresa, mas das coisas que você
não tem a mínima vocação para desempenhar. Para Albert Camus, não existe
dignidade no trabalho quando nosso trabalho não é aceito livremente.
Pense nisso e seja feliz!
Jerônimo Mendes é Administrador, Consultor e Palestrante
Autor de Oh, Mundo Cãoporativo! (Qualitymark) e Benditas Muletas (Vozes)
Mestre em Organizações e Desenvolvimento Local pela UNIFAE