Deixando de Recriar Padrões
Por Rosemeire Zago
28/01/2010
Todos nós temos uma tendência a repetir padrões de comportamentos em nossos
relacionamentos, e estes se intensificam principalmente nos relacionamentos
afetivos. Por mais amor que recebamos durante a infância, parece que nunca é
suficiente e, inconscientemente, estamos sempre buscando preencher e encontrar o
que não recebemos de nossos pais. A intenção não é de forma alguma culpá-los,
que com certeza nos deram o que tiveram ou até se superaram para não repetirem o
que receberam, mas como podemos perceber, os padrões se repetem. Se você tem
filhos já deve ter percebido muitas vezes que aquilo que disse a si mesmo que
não repetiria, de repente, se vê fazendo exatamente igual. E isso acontece com
muito mais frequência do que gostaríamos.
Inconscientemente, todos tendemos a reproduzir a situação já conhecida da
infância na escolha de um parceiro. Muitas vezes a escolha será de acordo com
aspectos semelhantes aos do pai e/ou da mãe. Sim, você pode achar um absurdo
fazer uma escolha como essa, mas acontece. Procure pensar em algumas
características de seu pai e/ou sua mãe e compare-as com as do seu parceiro.
Algo em comum? Pense com calma, faça uma reflexão profunda. Você poderá
descobrir muitas coisas sobre seu relacionamento. Ou sobre sua última relação
afetiva. Geralmente, descobrimos em comum as queixas que tínhamos de nossos
pais. Pode ser que ao ter conhecido seu atual parceiro isso não tenha sido
percebido, mas com o passar dos anos... pode ficar muito claro.
Muitas pessoas sequer têm consciência do sofrimento do passado e muito menos do
quanto pode estar afetando sua vida atual. Mas afeta, pois quando crianças não
tínhamos como entender o que estava faltando ou nem mesmo que houvesse algo
faltando. E muitos adultos, continuam não percebendo as necessidades que
trouxeram de quando crianças. Você pode até se lembrar de ter tido uma infância
feliz, e pode ser que tenha tido mesmo, mas também pode ser que aquilo que o
feriu profundamente tenha ficado muito bem escondido em alguma parte de seu ser,
mas de alguma forma se faz presente neste momento. Mesmo que você tenha
dificuldades em aceitar que seu passado ainda interfira em sua vida, isso não é
o suficiente para não afetá-lo.
Para identificar o quanto o passado ainda interfere em sua vida, pense em um
problema que esteja vivendo no momento. Para isso, procure não usar a razão.
Evite também pensar que seu problema atual seja por culpa de alguém, isente
ainda a raiva, a ansiedade, suas frustrações, isso seriam as justificativas
racionais para tal problema. Considerando tudo isso, pense novamente num
problema atual, sem racionalizações, sem defesas, sem justificativas. Qual é a
resposta? Vamos supor que sua resposta tenha sido que o problema atual seja não
ser amado. Agora olhe para trás e procure lembrar-se de sua situação com seus
pais: o que lhe deram, como se sentiu realmente em relação à sua infância?
Talvez você perceba que a mesma mágoa ou dificuldade de antes é a mesma do
momento atual. Considerando o exemplo acima como problema atual sendo não ser
amado, poderemos encontrar no passado exatamente a mesma necessidade: não ter
sido amado, ou ao menos, não amado como gostaria de ter sido. Eureka!!! E agora?
Você pode agora perceber que sua necessidade inconsciente em recriar sua mágoa
da infância não se faz necessária conscientemente. Ou seja, você pode parar de
recriar situações da infância, que em geral, são em busca de amor, atenção,
reconhecimento, ao tornar consciente o que até o momento estava totalmente
inconsciente. E o que tudo isso tem haver com a escolha dos parceiros? Tudo. Se
conseguir identificar o que está buscando, por exemplo, amor, não irá mais
buscar de uma maneira impulsiva e muitas vezes até inconsequente. É muito
diferente quando sabemos o que necessitamos e nos tornamos responsáveis por
suprir nossas necessidades emocionais, de quando fazemos isso de forma cega, no
escuro, ou seja, de maneira inconsciente.
Quando o conflito da criança é percebido conscientemente não haverá mais a
necessidade de recriar situações semelhantes. Isso acontece com o intuito de que
ao recriar a situação já conhecida e não resolvida da infância, você possa agora
resolvê-la. Mas na verdade, só a resolvemos quando a enxergamos, quando
conseguimos torná-la consciente. Para isso é importante muita reflexão,
observação, principalmente dos seus sentimentos, ou seja, é preciso
autoconhecimento. Quais são os sentimentos que você tem tido? Responder essa
pergunta pode ser um bom começo. O que você espera de seu parceiro e que não tem
recebido? Será que não é exatamente aquilo que não recebeu de seus pais?
Concorda que o que seus pais não lhe deram é muito difícil alguém te dar? Por
quê? Simplesmente porque não são seus pais. Essa é uma diferença importantíssima
e que deve ser considerada, pois assim poderá sim desejar amor e ser amado, mas
não irá esperar que esse amor compense aquilo que não recebeu. Compreenda e
perdoe aqueles que não lhe deram o que você esperava. Libertando-os, estará
libertando a si mesmo.
Rosemeire Zago é psicóloga clínica, com abordagem junguiana e especialização em
Psicossomática. Desenvolve o autoconhecimento através de técnicas de
relaxamento, interpretação de sonhos, importância das coincidências
significativas, mensagens e sinais na vida de cada um, promovendo também o
reencontro com a criança interior. Email: r.zago@uol.com.br